Mostrando postagens com marcador Paulo Leminski. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Paulo Leminski. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 26 de março de 2010

Desencontrários

Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.

Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.




Paulo Leminski

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Apagar-me

.
.
.
.
apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme

p. leminski

domingo, 17 de agosto de 2008

Iceberg


Uma poesia ártica,
claro, é isso que eu desejo.
Uma prática pálida,
três versos de gelo.
Uma frase-superfície
onde vida-frase alguma
não seja mais possível.
Frase, não, Nenhuma.
Uma lira nula,
reduzida ao puro mínimo,
um piscar do espírito,
a única coisa única.
Mas falo. E, ao falar, provoco
nuvens de equívocos
(ou enxame de monólogos?)
Sim, inverno, estamos vivos.


(Paulo Leminski)

Segundo consta





O mundo acabando,
podem ficar tranquilos.
Acaba voltando
tudo aquilo.

Reconstruam tudo
segundo a planta dos meus versos.
Vento, eu disse como.
Nuvem, eu disse quando.
Sol, casa, rua,
reinos, ruínas, anos,
disse como éramos.

Amor, eu disse como.
E como era mesmo?


(Paulo Leminski)

Aviso aos náufragos



Esta página, por exemplo,
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.

Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.

Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta pagina, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialétos da Índia,
vai ter que dizer bom-dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não e assim que é a vida?


(Paulo Leminski)

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

.


acaso é este encontro
entre tempo e espaço
mais do que um sonho
que eu conto ou
mais um poema que faço?

paulo leminski

quarta-feira, 23 de julho de 2008

.


...leite, leitura,
letras, literatura,
...tudo o que passa,
tudo o que dura
...tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
...tudo, tudo, tudo,
não passa de caricatura,
...de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura.

p. leminski

quinta-feira, 19 de junho de 2008

9 Poemetos


I

É quando a vida vase
É quando como quase.
Ou não, quem sabe.


II

Vim pelo caminho difícil,
a linha que nunca termina,
a linha bate na pedra,
a palavra quebra uma esquina,
mínima linha vazia,

a linha, uma vida inteira,
palavra, palavra minha.

III

O paulo leminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhadaputa
de fazer chover
em nosso piquenique

IV

Manchete

Chutes de poeta
Não levam perigo à meta

V



apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo

não reste mais
que o charme

VI

uma carta uma brasa através
por dentro do texto
nuvem cheia da minha chuva
cruza o deserto por mim
a montanha caminha
o mar entre os dois
uma sílaba um soluço
um sim um não um ai
sinais dizendo nós
quando não estamos mais


VII

Pariso
Novayorquizo
moscoviteio
sem sair do bar
só não levanto e vou embora
porque tem países
que eu nem chego a madagascar


VIII

nunca quis ser freguês distinto
pedindo isso e aquilo
vinho tinto
vinho tinto
obrigado
hasta la vista

queria entrar
com os dois pés
no peito dos porteiros
dizendo pro espelho
- cala a boca
e pro relógio
abaixe os ponteiros

IX

nem toda hora
é obra
nem toda obra
é prima
algumas são mães
outras irmãs
algumas
clima





(Paulo Leminski)

Confira


.

Confira
tudo que
respira
conspira


(Paulo Leminski)

Paulo Leminski



desta vez não vai ter neve
como em petrogrado aquele dia
o céu vai estar limpo e o sol brilhando
você dormindo e eu sonhando

nem casacos nem cossacos
como em petrogrado aquele dia
apenas você nua e eu como nasci
eu dormindo e você sonhando

não vai mais ter multidões gritando
como em petrogrado aquele dia
silêncio nós dois murmúrios azuis
eu e você dormindo e sonhando

nunca mais vai ter um dia
como em petrogrado aquele dia
nada como um dia indo atrás do outro vindo
você e eu sonhando e dormindo


(P. Leminski)

Desencontrários


Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.

Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
fazer poesias, eu sinto, apenas isso
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.




(Paulo Leminski)

quarta-feira, 4 de junho de 2008


Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.

p. leminski

sábado, 10 de maio de 2008

.


_____de ramo
______________em ramo
meu pensamento
___________de rima
__________________em rima
__________________________erra

até uma
________que diz
_______________te amo


(LEMINSKI, 1983)

Sacro Lavoro


.:.


as mãos que escrevem isto
um dia iam ser de sacerdote
transformando o pão em vinho forte
na carne e sangue de cristo

hoje transformam palavras
num misto entre o óbvio e o nunca visto



(Paulo Leminski)

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Take p/ Bere


Foi tudo muito súbito
tudo muito susto
tudo assim como a resposta
fica quando chega a pergunta

esse meio assunto
que é quando a gente está longe
e continua junto


P. Leminski

.



..pessoas deviam poder evaporar
quando quisessem
..não deixar por aí
lembranças pedaços carcaças
..gotas de sangue caveiras esqueletos
e esses apertos no coração
..que não me deixam dormir
.
p. leminski

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Dionisios Ares Afrodite


aos deuses mais cruéis

...juventude eterna



eles nos dão de beber

...na mesma taça

o vinho, o sangue e o esperma


p. leminski

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Lápide 2: epitáfio para a alma


aqui jaz um artista,
mestre em disfarces

viver
com a intensidade da arte
levou-o ao infarte
Deus tenha pena
dos seus disfarces
.
p. leminski

quinta-feira, 17 de abril de 2008

.


....Andar e pensar um pouco,
que só sei pensar andando
.....Três passos, e minhas pernas
já estão pensando.

....Aonde vão dar esses passos?
Acima, abaixo?
....Além?
Ou acasose desfazem no vento
....sem deixar nenhum traço?

p. leminski

sábado, 12 de abril de 2008

Razão de Ser



Escrevo. E pronto.
Escrevo porque preciso,
preciso porque estou tonto.
Ninguém tem nada com isso.
Escrevo porque amanhece,
E as estrelas lá no céu
Lembram letras no papel,
Quando o poema me anoitece.
A aranha tece teias.
O peixe beija e morde o que vê.
Eu escrevo apenas.
Tem que ter por quê?

p. leminski